Escrevo porque Cecília não canta mais, e de torneira pingando o copo na pia transborda. Sou alegre e sou triste, um dos três patetas.
Volta aqui, maninho, traz o cobertor. Vida de homeless é uma tormenta constante.
Desmonto e não me levanto. Saio e não vou. Dissolvo. Talvez fique, ou não. Escrevo e o papel insiste, uma gota vermelha no paletó, prendas invisíveis de ismália, preciso aprender libras.
Mais nada.
Nem precisa entender. Mas se sim, avisa. Confortaria.
Para uma empresa existir, precisa de capital e trabalho, com características variadas em seus quatro momentos cruciais:
Fase 1 - Fundação Trabalho: Coragem e criatividade
Capital: suficiente para sustentar a empresa durante o prazo estabelecido até chegar ao ponto de equilíbrio. Se o capital acabar antes, a empresa acaba. Se o prazo terminar e o ponto de equilíbrio não chegar, a empresa acaba.
Fase 2 - Crescimento Trabalho: conhecimento e ousadia
Capital: disponibilidade; liberdade de uso vigiada
Fase 3 - Estabilidade Trabalho: método e regras Capital: controle
Fase 4 - Declínio, para voltar à fase 3. Trabalho: rigor Capital: intocável; corte de despesas
Correr é assim que se pode. Por tanto, ou pouco, passa tão rápido quanto o ontem. Ah, o ontem, tão velho que hoje já é o amanhã. E assim que se pode, foi o que pensou. Sentou ali, na beira do galho, enquanto os pardais disputavam uma partida de críquete. Juiz ladrão! Berrava um. Foi pênalti! Trinava outro. Pois como disse, correr é assim que se pode.
Doutra vez, já sentado à beira do galho, pensou também. Comia amendoins de um saquinho que, vazio, virou trovão, espantando pardais, sabiais, tais e quais. Formigas voaram em sua direção e, de um golpe, engoliu-as todas. Por isso, dizem, é que à noite tosse tanto.
Já mais velho, o galho, rompeu, e o tronco não era sentável. Chorou como hiena em banquete de velório. De seus olhos vertiam os mais risonhos caxinguelês, de par em par, símbolos da tristeza arraigada. De fato, sentia-se poderoso, apesar da gravata apertada. Sem fato, sentia-se nu. Tirou então o fato e os sapatos, rolou na grama, deu de cabeça no rio. Não fossem as pedras, teria se espatifado e se esvaido em riso.
Correr é assim que se pode. Por falar nela, a cabra, saltava de gole em gole. Já não era futuro, e o calendário amassado no bolso de trás da calça nem sabia mais que dia era, se outono ou inverno. Bastava saber que era dia, apesar do sol.
Correr é assim que se pode. O pente de plástico permanece lá.
Imagine que o Corinthians não tenha um estádio grande o suficiente para abrigar sua torcida. Joga uma vez no Morumbi, outra no Pacaembu, e assim vai levando.
Mas o time não está satisfeito e buzina o tempo todo no ouvido da CBF: "precisamos de um estádio, precisamos de um estádio!".
Um dia a CBF se enche daquilo e resolve arrumar um estádio para o Corinthians: "ok, ok, vocês podem ficar com o Parque Antarctica".
Os corinthianos festejam, ficam malucos, saem gritando pela cidade, mas, é claro, os palestrinos, donos do estádio, ficam furiosos. Tentam resistir, argumentam, acionam o jurídico, mas nada adianta. São obrigados a desocupar o imóvel em 30 dias.
Sem campo para jogar ou treinar, os palestrinos tomam uma atitude radical: ocupam o Parque da Água Branca, ali pertinho. Só que eles têm consciência de que o parque não é a casa deles, e continuam tentando recuperar o outro parque. Tentam invadir, fazem abaixo-assinados e passeatas. Como nada dá resultado, começam a jogar pedras. Obviamente os corinthianos revidam e ficam nessa de pedra para os dois lados durante décadas.
A CBF tenta amenizar, o São Paulo diz que o campo é do Corinthians, a Portuguesa diz que o campo é do Palestra e os dois times continuam trocando pedradas.
Agora o Bispo vai lá e pede para os dois times jogarem um amistoso, que não vai resolver nada. Fácil, né?
A Folha abriu hoje um raro espaço para a música sertaneja publicando uma enquete informal que seleciona o que chama de as melhores músicas “caipiras” de todos os tempos. Foram ouvidos compositores, críticos e aficionados, como Zezé di Camargo, Renato Teixeira, Fernando Faro, José Hamilton Ribeiro, Rosa Nepomuceno e @marcelotas. Boto aspas em caipiras porque a votação não se resume a esse gênero.
Usei a inspiração do jornal para tentar criar minha lista de dez melhores músicas, mas não consegui resumir tanto e fechei em 17, e sentindo remorsos por deixar ainda umas vinte ou trinta de fora.
Não há um consenso entre o que seja sertanejo, caipira ou breganejo. Então, antes da lista, deixo minha definição pessoal dos estilos:
Música Sertaneja
Era a música criada ou cantada no interior do Nordeste. Por volta dos anos 1960 e 1970, passou a ser uma denominação “chique” para a música caipira, o que facilitou sua aceitação nos meios urbanos, e hoje é um guarda-chuva que abriga diversas ramificações. É impossível fechar os estilos porque os artistas frequentemente transitam entre um outro, como Sérgio Reis e a dupla Cesar Menotti e Fabiano, associados tanto ao caipira quanto ao pop.
Música Caipira
Originária da região que abrange o oeste e norte do Paraná, todo interior de São Paulo e sul de Minas Gerais, chegando a partes de Goiás e Mato Grosso do Sul. Essencialmente de temática rural, é cantada em duplas que se acompanham por viola e violão, às vezes sanfona. Seus ritmos principais são a moda de viola, a toada e o pagode. Alguns representantes: Tonico e Tinoco, Vieira e Vierinha, Zilo e Zalo, Tião Carreiro e Pardinho. Com letras geralmente trágicas, também há a vertente da comédia, marcada por Alvarenga e Ranchinho.
Sertanejo romântico
Canções de amores bem sucedidos e saudades desses amores. Tem influência das guarânias paraguaias, através da “nação guarani”, que junta o Paraguai ao Mato Grosso, e da música mexicana, depois do sucesso de cantores daquele país no Brasil por volta dos anos 1950 e 1960. Seus principais representantes são Cascatinha e Inhana, Belmonte e Amaraí, Irmãs Galvão, chegando a Milionário e José Rico, no limiar do pop-sertanejo.
Pop-sertanejo
Derivado do sertanejo romântico, o pop (pejorativamente, breganejo) teve seu marco inicial com a dupla Chitãozinho e Xororó, com a incorporação da guitarra elétrica e bateria, no comecinho dos anos 1970. Boa parte das letras falava de relações sexuais e traições. No mesmo grupo estão Zezé di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, João Paulo e Daniel e, atualmente, Vitor e Leo. A partir dos anos 1990, o pop-sertanejo começou a adotar elementos do caipira norte-americano.
Música de raiz
Definição que junta a música caipira “pura” à sua versão mais sofisticada, urbana, mas remetendo ao ambiente rural. As novas letras são mais trabalhadas e suprimem os erros de grafia típicos dos caipiras originais. Entre os músicos de raiz, estão Renato Teixeira, Almir Sater, Passoca e Pena Branca e Xavantinho.
As "minhas" melhores músicas sertanejas (em ordem alfabética, por covardia):
“Boiadeiro”, de Klécius Caldas e Armando Cavalcante, com Luiz Gonzaga
“Cabocla Tereza”, de João Pacífico. Uma das mais famosas tragédias caipiras. Quando eu ouvia, na infância, entendia que o título era “Cabô com a Tereza”
“Cheiro de Relva”, de Dino Franco e José Fortuna
“Chico Mineiro”, de Francisco Ribeiro e Tonico, gravação original de Tonico e Tinoco.
“Cuitelinho”, folclore adaptado por Paulo Vanzolini, na gravação de Nara Leão
“Guacira”, de Joracy Camargo e Heckel Tavares, com Cascatinha e Inhana. Uma das melhores gravações para se apreciar a voz de Inhana que, para mim, só pode ser comparada à de Billie Holiday. A versão de João Gilberto também é muito bonita, mas deixa de ser caipira.
“Guarânia da Lua Nova”, de Luiz Vieira, na gravação de Cascatinha e Inhana. Belíssima combinação de letra e música que associa o amor à vida rural: "Saudade, bichinha danada que em mim fez morada e não quer se mudar, tem gosto de jiló verdinho plantado na lua nova do penar"
“História de Um Prego”, de João Pacífico. A “usina de letras” João Pacífico conta a história de um boiadeiro que deixa um prego na parede como herança para o filho.
“Leilão”, de Joracy Camargo e Heckel Tavares, na gravação de Inezita Barroso. Retrato doloroso da escravidão no Brasil, conta a separação de uma rainha kambinda e seu “preto véio”.
“Paineira Velha”, de José Fortuna, com Zé Fortuna e Pitangueiro. Fortuna compôs cerca de 2.500 músicas e boa parte delas ainda não foi gravada. Também criou versões de sucesso como “Índia” e “Meu Primeiro Amor”.
“Pé de Cedro”, de Goiá e Zacarias Mourão. Caso de amor entre um caipira e uma árvore, como “Paineira Velha”.
“Pingo d' Água”, de João Pacífico e Raul Torres. Exemplo da religiosidade sertaneja, inspirada na reza pela chuva.
“Pretinho Aleijado”, de Teddy Vieira e Luizinho, com Tião Carreiro e Pardinho
“Saudade de Minha Terra”, de Goiá e Belmonte, na gravação de Belmonte e Amaraí, é um hino dos caipiras que se mudam para a cidade grande
“Sertaneja”, de René Bittencourt, em solo de Cascatinha
“Tardes Morenas de Mato Grosso”, de Valderi e Goiá, com Nalva Aguiar
“Vai e Vem do Carreiro”, de Carlos Cezar e José Fortuna, com Carlos Cezar e Cristiano
Quem comparar minha lista à da Folha, perceberá que não escolhi as duas mais votadas na enquete do jornal. Não gosto de “Menino da Porteira” - acho fraca em história e música, além de muito massacrada como referência de música caipira.
Quanto a “Tristeza do Jeca”, quase unanimidade entre os votantes, nunca consegui ouvir como música caipira de fato. Tenho a impressão de que é uma homenagem, uma bela homenagem, ao caipira, mas que não saiu de um deles. Impressão falsa, porque Angelino de Oliveira, era um baita dum caipira da gema e da clara, muito mais compositor que dentista, sua profissão de registrar em hotel. Talvez considere “Tristeza” em outro nível, além do hours concurs, uma coisa mais para Villa Lobos que para Zé Carreiro. Ou talvez apenas queira fugir de sua tristeza verdadeira, essência da cultura caipira, isolada, longe do mar, dos acordes menores na viola de cintura fina. E de tantas vezes que chorei ao ouvir “O Causo do Angelino” cantada e contada por Paulo Freire, em blues quase à capela, seguida de uma chuva fininha e da Tristeza em si.
Sim, é papo de nerd, mas tenho a impressão de que vem uma nova revolução por aí, e tento tirar o assunto da nerdice para encaixá-lo no mundo real.
Trata-se de um brinquedinho concebido no MIT que tem tudo para ser o mascote da Idade da Informação.
Siftables são computadores quadradinhos do tamanho de biscoitos, na definição dos criadores, que interagem com outros quadradinhos de acordo com nossa necessidade. Pense em caixas de fósforos. Escreva, numa delas, o número 1. Em outra, o número dois. No meio das duas, coloque uma caixinha com sinal de + e uma com sinal de igual no fim. Depois, coloque uma caixa de fósforo sem nada escrito. O que vai acontecer? Nada. Mas se essas caixinhas fossem siftables, imediatamente apareceria o número 3 na última.
Outro exemplo: pense numa caixa de fósforo pintada de amarelo e outra pintada de azul. O que acontece quando você inclina uma sobre a outra? Nada. Pois na cabeça dos inventores do MIT, a caixa azul vai ficar verde.
Não é ficção. Estas duas situações, entre várias outras, foram apresentadas no TED2009. Nerds do mundo todo perderam o sono nos últimos dias imaginando as infinitas possibilidades de uso dos siftables.
Tenho a leve impressão de que o Big Brother 9 será vencido por uma mulher. Se tudo correr como previsto pelos sites paralelos, Ralf deve sair do jogo nesta terça, mesmo dia em que se encerra a visita do rico angolano Ricco. Restarão, na ala masculina, os eunucos Max e Flávio. E as sete odaliscas serão as amazonas de Jacarepaguá: Ana Carolina, Francine, Josiane, Maíra, Milena, Naiá e Priscila.
Este post foi publicado com o propósito de atrair audiência para o blog, usando como imãs o BBB, programa mais popular da televisão brasileira, a guerra dos sexos, sempre presente nos programas de auditório, e uma pitada de preconceito. Tem tudo pra dar certo.
A hipótese de uma biosfera paralela, supostamente originária de algum outro lugar no universo, dá um chacoalhão na teoria darwiniana, antes mesmo que essa se acomode da turbulência original - afinal, ainda há gente que crê em criacionismo.
Nada há de absurdo na existência de formas de vida alienígenas no planeta, já que estamos constantemente sob chuva de fragmentos espaciais, e sabe-se lá o que vem nesses fragmentos.
Particularmente, acredito em tudo: evolução, invasão, transmutação... menos em Deus, porque aí já seria fantasiar demais.
Virou default indexar o Teatro Mágico como chato, ou outro label discriminatório qualquer, por parte da malta moderno-nerd que deu uma passadinha pela #cparty. Saio em defesa do grupo, por estes motivos:
- TM é espontâneo e atrai multidões a qualquer lugar, apenas com um avisinho no site, mostrando sintonia com seu público e fazendo o melhor uso possível do conceito de comunidade social, sem precisar se preocupar com conceitos; tudo muito natural.
- Suas músicas têm letras. Só isso já chutaria qualquer balada eletrônica para o lixão da insignificância, mas tem mais: as letras são boas.
- São letras que externam o pensamento do público adolescente, geralmente sufocado por imposições comerciais ou culturais alienígenas. São letras caretas, concordo, mas caretas do bem, voltadas à sobrevivência e à preparação da molecada para o futuro.
Coloco em contraponto a preferência musical dos críticos do primeiro parágrafo. A música eletrônica da moda pode ser comparada ao funk-rio da moda, ambos péssimos como informação ou como lazer. Estão em pontas opostas de uma escala cultural, porém essas pontas são extremos de uma ferradura: só há um pequeno espaço vazio entre os dois.
Como pai de adolescente que gosta das três manifestações musicais, posso concluir que Teatro Mágico é construtivo, baladas eletrônicas são inócuas e funk-rio é degradante.
E fecho com uma ressalva ao TM: Fernando Anitelli está no caminho perigoso de se tornar um pequeno deus para os fãs do grupo, como aconteceu no passado com Renato Russo e Raul Seixas. A influência do TM deve servir para motivar o surgimento de novos artistas, novas bandas e novos pensadores. A era dos líderes já era.
A partir de um comentário da @kakavisconti sobre o novo Ford Edge, fui procurar outros carros com nome de tecnologia celular. Encontrei dois: o GSM Delta e o Bristol Blenheim 3G. O GSM é um esportivo de 1958, e o Bristol é um "carrinho popular" de R$ 530 mil.
É curioso que agora, na era da telefonia móvel, a Ford batize um carro com esse nome.
Nos anos 90, quando a web começava a dar as caras, a montadora lançou o jipão Explorer, que era (ainda é?) o nome do browser da Microsoft, o Internet Explorer. Em 1998, uma ramificação da Ford, a Lincoln, começou a fabricar outro jipão, de alto luxo, chamado Navigator. E esse era o nome do principal concorrente do Internet Explorer na época, o Netscape Navigator.
Veja o que são e como funcionam as tecnologias EDGE, GSM e 3G.
1º) O c, com valor de oclusiva velar, das sequências interiores cc (segundo c com valor de sibiliante), cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante) pç e pt, ora se conservam, ora se eliminam.
Fonte: Escrevendo pela nova ortografia, Instituto Antônio Houaiss, página 71.
- E mais que foi no dia em que as formigas deram de comer sal.
- Sal?
- Do salgado.
- E foi?
- Formigas do Diabo. Diabetiques. Fazia pouco que andavam per aí. Tão pequititicas que mal se as via. Começaram no hábito lá delas, de perseguir tudo o que é doce. Como não bastasse, tascaram a comer do que restava em pratos ou na lixeira. Ateei-lhes fogo.
- Fogo?
- Com álcool. Quedaram zonzas de bebedeira e morreram de fogo quando risquei o palito.
- Que risco!
- Arriscado.
- Mas e?
- E que voltaram, dia ou dois depois. Não tenho conhecimento se eram as mesmas revividas, nem lhes tirei retrato ou pedi documentos, ou se eram novas, filhotas de alguma tantico maior sobrante da queimada.
- E?
- E que voltaram receosas do lugar do chamaréu. Nada de passar em fila pelo canto da pia, com aquelas desviadinhas de não-se-vê-o-quê, nem nada daquelas conversinhas com as que voltam, porque nem tinham, nada disso. Vinham, é sim, naquela fila compridinha, de umas tantas, mas quem diz que passavam da pia? Nada. Desciam pela porta do armário, cruzavam daqui e dali, rumavam qual cáfila sentindo cheiro de oásis, que pra elas era açúcar, mas o quê. O pozinho doce ficava acolá, e elas aquém da pia.
- Então e?
- E que tiveram de se ajeitar com o possível. E o possível na ocasião era outro pozinho, sal puro, branco, branquinho.
- Comeram, é?
- Só pode. Carrearam pelo saleiro de este a oeste e trouxeram no lombo, de oeste a este, grãozinhos salgados para levar lá para o formigueirinho delas.
- Nem creio.
- Pois creia.
- E por causa de que achas que deram disso?
- Nem calculo. De três uma: falta de gosto no paladar, diabetes no sanguinho ou carência grave de alimento.
Em frente ao ponto de ônibus, uma mulher, sentada na calçada, canta e gesticula. Ela olha para mim e faz sinal de positivo. Retribuo o gesto, e ela se aproxima. Estaria sorridente, se tivesse dentes:
- Hoje é meu aniversário.
- Parabéns!
- Olha o que fizeram comigo.
A mulher volta a cantar e gesticular.
- É que eu sou muito alegre.
- Isso é bom...
- Você acha? Ser alegre demais é triste.
Meu ônibus se aproxima.
- Tchau.
- Tchau.
Avenida Ipiranga, onze da manhã. Finalmente pude sair de casa, graças a uma chuva fininha e temperatura abaixo dos 22ºC.
Hugh Laurie é um ator americano, nascido na pequena cidade de Monty Phyton, na Inglaterra Vitoriana. Filho do também ator Stanley Laurel e da multiprocessadora Laurie Anderson, o pequeno Hugh desde cedo resolveu que seria médico. Seu passatempo era ler bulas de remédios, chegando a possuir uma buloteca com mais de 3.491 exemplares - 3.492, para ser exato -, que foi destruída por seu irmão mais novo, Hugh Grant. Apesar de ser pego com a boca na botija, Hugh, o Grant, negou tudo, e Hugh, o Laurie, foi expulso de casa sob a acusação de acusar o irmão injustamente. Na saída, tropeçou acidentalmente no pé do maninho e quebrou a perna esquerda. Sozinho no mundo, manco e sem dinheiro, levando apenas um velho paletó e uma bengala, Hugh, o Laurie, teve de trabalhar para se sustentar e para sustentar seu vício em balinhas TicTac. O único emprego que conseguiu foi como chapeiro num decadente restaurante de beira de estrada nos arredores de Londres, especializado em peixe com batata-frita, chamado Stephen Fry's. Como o restaurante só trabalhava com frituras, o jovem chapeiro passava o dia todo observando os poucos clientes que adentravam ao estabelecimento, como o músico maranhense Zeca Baleiro. Foi um grande aprendizado. Mais tarde, conseguiu emprego como comediante stand-up num navio que seguia para o Kansas, nos Estados Unidos. Enjoado da viagem, montou num cachorro cinza e partiu para Nova Jersey, onde passou a trabalhar como médico, profissão que ostenta até os dias atuais. Nas horas livres, toca piano e violão, joga golfe, trapaceia no pôquer e lê os ensinamentos de Sir Arthur Conan, o bárbaro Doyle, e seu implacável araponga Sherlock House.
Estou atrasado para o trabalho. Engulo um café puro e corro para a garagem. Entro no carro, coloco o cinto e dou a partida, quando uma ampulheta começa a girar no painel.
O desenho de uma janela estilizada no centro do volante me lembra que agora os carros são obrigados a ter um sistema operacional instalado "de fábrica", "para melhorar a experiência do usuário", diz a propaganda oficial.
E uma ampulheta gira no painel.
Tempos depois, a ampulheta dá lugar a um retângulo com mensagens enigmáticas. Aguarde. Verificando componentes do kernel. Verificando biela. OK. Verificando virabrequim. OK. Verifricando cárter. OK. Uma infinidade de verificações e OKs. De repente, o retângulo some, e a ampulheta não aparece. Espero uns cinco segundos sem que nada aconteça e tento dar partida novamente, mas a chave não vira. Ouço um estalo e as portas se travam automaticamente. Outra mensagem no retângulo: Validando autenticidade do condutor. Por favor, insira sua carteira de habilitação no porta-luvas. Você não poderá sair do veículo durante este processo. Buzine para confirmar.
Fom-fom.
Erro. Validando autencidade do condutor, tudo de novo.
Ah, já sei, não poderia ter buzinado duas vezes. Buzine para confirmar. Fom. Parabéns! Sua autenticidade foi verificada com sucesso.
Mais mensagens. Analisando componentes de segurança. Olha a ampulheta lá de novo. A versão de seu cinto de segurança parece estar desatualizada. Deseja se conectar à loja de autopeças para consultar atualizações? Você não poderá dar partida com componentes de segurança desatualizados. Sim, conecte à loja de autopeças. Baixando cinto de segurança de três pontos 3.0. Ampulheta. Mensagens no retângulo: Sistema de freios OK. Airbag frontal OK. Airbag lateral OK. Agora as mensagens se alternam desesperadamente no retângulo. Mal consigo ler. Mais alguns minutos e uma ação é requerida. Componetes de segurança atualizados. Você deve sair do veículo e entrar no veículo para que as alterações tenham efeito. As portas se destravam. Saio, olho para os lados disfarçadamente para ver se algum vizinho paga semelhante mico e volto a entrar no carro. Coloco o cinto. Dou a partida. Uma ampulheta começa a girar no painel.
Finalmente consigo pôr o carro em movimento, mas só até a primeira esquina. Enquanto espero o semáforo abrir, percebo que o motor silencia. As luzes do painel piscam e o maldito retângulo cinza surge, todo tímido, mas prepotente: O motor executou uma operação ilegal e será desligado. Pise na embreagem, engate o ponto-morto e puxe o afogador simultaneamente para reiniciar.
Ah, que delícia a tecnologia. Esqueço que estou atrasado e nem percebo os quilômetros que me separam do escritório: música polistereofônica por comando de voz, aproximação de outros carros detectada por infravermelho, barbeador automático pré-configurado para o modo reunião com a diretoria, refrigerante light gelado em uma das doze portas USB, recados da secretária eletrônica pelo viva-voz bluetooth, banco com massageador, ajuste de gravata com as opções windsor, meio-windsor, esportivo... enfim, um carro com múltiplas possibilidades de utilitários, lazer, relaxamento e... um cachorro!!!!! Um cachorro cruzando a pista!!! Afundo o pé no freio e, antes de fechar os olhos esperando pelo impacto, ainda leio no painel: Tem certeza que deseja frear? Ufa, deu tempo.
Mais calmo, sigo meu trajeto e chego ao estacionamento do trabalho. O GPS indica uma vaga, e o piloto automático se encarrega de estacionar. Mas faço questão de continuar no carro, até que esteja totalmente parado, só para garantir uma volta para casa tranqüila e rápida: deixo o motor funcionando, com as atualizações automáticas desligadas.